Centelha

VEJA/VERT – Tênis ecológicos

Como tudo começou

Em 2003, então com 25 anos de idade, Sébastien Kopp e François-Ghislain Morillion faziam uma auditoria social em uma fábrica na China para uma empresa de moda francesa e, mesmo vendo que os trabalhadores pareciam cansados  e pálidos, as condições de trabalho eram adequadas, mas ao pedirem para verem os dormitórios, constataram as péssimas condições enfrentadas pelos trabalhadores, cerca de 32 empregados dormiam em um local de cerca de 25 m², “empilhados” em beliches de 5 andares. Para piorar, no meio desse local havia um buraco no chão que servia de banheiro e chuveiro.

Sébastien Kopp e François-Ghislain Morillion, Amazônia, 2016 – © STUDIO VEJA

Nesse mesmo ano, muitas empresas já falavam em desenvolvimento sustentável, mas segundo Kopp e Morillon, muito disso era discurso e pouca coisa representava uma mudança real. Em paralelo, já trabalhavam para e com Tristan Lecomte, que havia iniciado a AlterEco, a primeira marca francesa de comércio justo. A AlterEco comercializava suco de laranja, chá, arroz, café e chocolate trabalhando diretamente com produtores e agricultores ao redor do mundo. Como auditores, Kopp e Morillon auditaram fornecedores para a AlterEco e constataram a diferença que faz o comércio justo e como promove trocas mais justas entre produtores e consumidores.

Então, depois de trabalharem para empresas internacionais e também para Tristan, voltaram para Paris e, no sentido contrário da efervescência daqueles anos do boom da internet, decidiram mergulhar no “material” e reinventar um produto. Esse produto viria a ser o tênis, um ícone de muitas gerações (e da deles, é claro).

O processo foi desconstruir para depois reconstruí-lo de uma maneira diferente, sustentável. Nascia assim uma nova marca de tênis. Os tênis, também eram um produto que concentrava enormes gastos com publicidade, cerca de 70% dos custos de um par de tênis são com publicidade e os 30% restantes são com matéria-prima e produção. Estava aí outra importante decisão estratégica, não fariam publicidade e direcionariam este montante para o desenvolvimento do produto, já que, fazer tênis sustentáveis (ou qualquer outro produto) não é fácil, muito menos barato. Com custo cerca de 5 vezes mais caro do que um tênis fabricado na China (por exemplo), esse montante economizado na publicidade era indispensável para o desenvolvimento e produção.

(Esquerda) Roraima Suede Brown Black Natural-Sole – © VINCENT DESAILLY
(Direita) Modelo Esplar todo feito com Tilápia – © STUDIO VEJA

Desconstruindo

Em 2004, sabedores dos riscos (e sem dinheiro), partiram para uma viagem pelo Brasil que, segundo eles “é um país que possui todas as matérias-primas de que precisamos e fábricas que protegem os trabalhadores. E é um país onde tudo parece possível, um país que acolhe de braços abertos aqueles que estão dispostos a tentar”.

O objetivo traçado era o de desconstruir o tênis e começar da matéria-prima até o produto final, tentando mudar cada estágio da produção para que o impacto no meio ambiente e na sociedade fosse o mais positivo possível.

Foram parar na Amazônia, contatando comunidades seringueiras, comunidades estas que dependem da floresta e, por esta simples razão, não querem destrui-la, mas sim, preservá-la. Desde então, essa “borracha selvagem” se tornou o pilar dos tênis fabricados pela VEJA/VERT representando 40% das solas.

Da Amazônia partiram para o nordeste, como eles mesmos dizem “um lugar muito árido onde é difícil para qualquer coisa crescer”. Mas foi lá que encontraram o algodão orgânico, numa cooperativa de 35 produtores apoiados por uma ONG local. Este algodão orgânico era e é produzido sem fertilizantes ou pesticidas, mais do que um algodão ecológico, um algodão agroecológico. Os princípios da agroecologia enriquecem o solo ao invés de prejudicá-lo. No primeiro contrato firmado, a VEJA/VERT pagou o dobro do usual de mercado. Os cooperados não entenderam nada! Logo apelidaram Kopp e Morillon de “franceses loucos”. Três toneladas de algodão foram compradas, sendo utilizadas nos primeiros tênis produzidos. Compradas de acordo com os princípios do comércio justo: sendo pagos de forma antecipada à colheita e, a um preço estabelecido em um contrato de três anos.

Seringueiro extraindo a borracha da seringueira, Amazônia 2016 – © LUDOVIC CARÈME

Algodão orgânico depois da colheita, Ceará 2016 – © LUDOVIC CARÈME

Desceram até o sul do país, agora atrás da produção. Os tênis são produzidos no Vale do Sinos, no sentido contrário das grandes marcas que procuram locais com mão-de-obra barata, como a China, Vietnã entre outros, a VEJA/VERT produz seus produtos onde os direitos trabalhistas são respeitados. Também com contratos norteados pelos princípios do comércio justo.

A parte da logística ficou na França, em Bonneuil-sur-Marne, subúrbio de Paris. Lá, com a Ateliers Sans Frontières (ASF), uma organização sem fins lucrativos com foco na reintegração de pessoas no mercado de trabalho, expandiram de um espaço de 50m² (2004) para atuais 1.000 m². A ASF também lida com 100% da logística do site de comércio eletrônico da VEJA. Cada par passa pelas mãos dos funcionários da ASF para coleta, embalagem e envio.

Alguns números da parceria da ASF com a VEJA/VERT:

  • 62% da equipe não trabalhava há 2 anos;
  • 69% dos funcionários têm situação de vulnerabilidade social;
  • 124 pessoas receberam ajuda em 2016;
  • Mais de 200 pessoas encontraram trabalho e recuperaram o equilíbrio depois de fazer o trabalho de logística para a VEJA/VERT.

Nasce a Veja

Em 2005, surge oficialmente a marca Veja. Seu nome (na França), de acordo com os fundadores, significa ver através de seus tênis, ver o que está por trás.

No Brasil (só passou a ser vendido aqui em 2013), em razão do nome Veja já ser utilizado por uma famosa revista semanal e, também, por uma marca de produtos de limpeza, optaram por mudar para Vert que, em francês significa verde.

Logos VEJA e VERT

Tênis vegano, materiais alternativos, upcycling

De acordo com o site (versão francesa), 1 em cada 4 modelos são 100% veganos. Incluindo a coleção de 2018, dos 81 modelos, 20 não possuem qualquer produto de origem animal.

Dentre os materiais utilizados encontramos (veganos, reciclados e de origem biológica) o algodão orgânico e o látex natural (já falados); Pebax Rnew (biopolímero 100% óleo de mamona), Alveomesh (tecido de PET reciclado), B-Mesh (tecido a partir de PET reciclado de garrafas, fabricado em Santo André/SP), J-Mesh (uma mistura de juta, algodão reciclado e PET reciclado), EVA reciclado, tecido de juta, couro de tilápia, rejeitos do arroz, óleo de banana etc.

(Esquerda) V-10 Flannel Snow Black – © STUDIO VEJA
A flanela utilizada é 100% reciclada. Feito com algodão reciclado e PET reciclado.
(Direita) V-12 B-Mesh White Indigo Orange – © STUDIO VEJA

Além destes temos também o C.W.L., um material alternativo ao couro. Desenvolvido junto com um parceiro italiano (durante 5 anos), de origem biológica (resíduos de milho), utilizado inicialmente no modelo Campo, não foi possível utilizá-lo em larga escala já que testes revelaram sua instabilidade durante o processo de vulcanização. Sendo assim, tal material passou a ser utilizado em outro modelo, o V-10, já que este é colado e costurado (não é vulcanizado). O C.W.L. ainda contém na sua mistura o poliuretano, necessário no processo de extrusão.

Construindo, erros e acertos

Em 2009, Morillion e Kopp entendendo que a produção envolve muitos desenvolvimentos, com erros, acertos e, algumas mudanças de rumo, tomaram uma decisão muito relevante para o seu negócio, passaram a publicar os seus limites. Tudo o que fizeram de errado, entre várias outras coisas. Construir um negócio sustentável e justo não é nada fácil. Empresas e fornecedores, dos mais diversos segmentos, estão se adaptando e isso leva tempo. Essa transparência é fundamental e mostra a evolução do negócio, que vai se adaptando, mudando até chegarem em estágios minimamente aceitáveis dentro do conceito sustentável e justo. Sempre buscando soluções e inovações, é isso que estamos vendo acontecer na VEJA/VERT.

Condor Mesh White Orange Fluo – © STUDIO VEJA

Dentro dessa premissa da transparência e, assumindo que a marca não é um projeto perfeito, que é “uma experiência, um projeto em andamento; com seus limites e aperfeiçoamentos necessários”, dizem em seu próprio site (site brasileiro, acessado em 21 de janeiro de 2020) que um plano de reciclagem dos tênis ainda não foi estabelecido; que a espuma para dar sustentação ao cano dos tênis é um produto sintético feito à base de petróleo, que os cadarços não são de algodão orgânico (dado ao volume ainda não ser suficiente para uma produção exclusiva); que os pigmentos utilizados para tingir o couro, a borracha e o algodão ainda não são produtos naturais; que utilizar tinturas vegetais e não poluentes é um dos projetos em andamento da VERT etc.

A VEJA/VERT também é uma Empresa B (ou B Corp., em inglês). Uma Empresa B é uma empresa que visa como modelo de negócio o desenvolvimento social e ambiental, é uma certificação cedida pela B-Lab. Todas as Empresas B medem seu impacto socioambiental e se comprometem de forma pessoal, institucional e legal a tomar decisões considerando as consequências de suas ações na comunidade e no meio ambiente, no longo prazo.

 

FONTE(S):

https://www.veja-store.com/

https://www.vert-shoes.com.br/

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